Ciclo da vida

Por Marcella Franco

No princípio era o útero, e, à parte o trânsito intestinal materno, pouco havia que modificasse a cadência dos dias, de modo que o ciclo da vida em seu início era coisa das mais simples, do tipo que fazíamos –literalmente– com um pé nas costas. Nada de bruscas mudanças climáticas, porque dentro da barriga não há tempestade ou sol caribenho, nem problemas de conexão, já que episódios em que o sinal do cordão umbilical despenca foram, até hoje, raramente registrados na história da obstetrícia.

Só que aí a pessoa nasce. E dá-se a merda toda até que chegue o final dos tempos.

A começar, muito óbvio, pela comunicação precária. A manifestação de seis emoções básicas confinada a uma única mídia: o choro agudo de um recém-nascido. E Darwin ainda tem a pachorra de falar em evolução. Fome? Pranto inflamado. Sono? Pranto inflamado. Fralda suja, dor, tristeza, tédio profundo? Aham, mesmo sinal.

E, atenção ao spoiler, a eficácia dos diálogos não cresce lá essas coisas com o passar dos anos. A verdade é dura, mas o parquinho está infestado de indivíduos que, mesmo diante do empréstimo dum estimado carrinho ou boneca, não saberão agradecer. E vão erguer a mão. Jogar areia. Morder seu braço.

Na escola, mesma coisa. Apelidos escrotos, bilhete na agenda, prova de matemática, o descaramento da tia da cantina que, na hora do lanche, tenta desovar mistos quentes por ultrajantes dúzias de reais. Isso sem falar na humilhação magna, quando, de mão erguida e em voz alta, você chama de “mãe” por engano aquela que todo mundo insiste em chamar de professora.

Lá, nos livros de biologia, está a mania própria dos seres vivos de, além de nascer e crescer, também se reproduzir até que a morte nos busque. Uns mais, outros menos, vamos todos tentar encontrar sentido na existência humana inserindo partes do nosso corpo em espaços disponíveis do corpo alheio. Pode ser, inclusive, que, cegos pela empolgação que esse processo todo provoca, julguemos estar diante de algo que também consta dos livros (de ficção, agora), mas que, para ser experimentado de verdade, exige um esforço maior que o de simplesmente cutucar outro ser humano. Amor. Dizem. Parece que existe. Já ouvi falar.

Por causa dele, o amor, chega a vez da insônia, no ciclo da vida. A insônia, que é aquilo que acontece quando todo o mundo no mundo está dormindo e a gente, que deveria estar dormindo e, mais que isso, gostaria demais de estar dormindo, não consegue estar dormindo igual a todo o mundo. Não consegue executar a complexa tarefa de fechar o olho e cair no sono. Incompetentes.

Às vezes, a insônia pode vir sem motivo algum. Às vezes, porque tem boleto demais chegando por baixo da porta de entrada e, em vez de fazer uma fogueirinha com álcool e assar fondue de queijo em cima, o ser humano perde temporariamente seu senso de humor e chora em cima das contas. Chora, e depois não dorme. Olhão aberto derramando dor, e o cifrão, junto com o código de barra das concessionárias, tudo borrando e ficando ilegível no sensor.

O que nos leva, automaticamente, à central de telemarketing. Impedido de pagar tudo o que deve no caixa automático, o indivíduo, agora, precisa de ajuda. E ajuda, ele ainda não sabe, é o que menos encontrará no 0800 da TV a cabo. Ou da operadora de telefone, de luz, de gás. Do restaurante de comida chinesa, que agora só foca os clientes do aplicativo e condena à inanição quem ainda insiste em ligar para pedir um yakisoba.

A fome, aliás, junto com as contas, é um dos três principais pilares da vida adulta –o último é a ininterrupta vontade de chorar, que nos acompanha desde a infância, como antes mencionado, sendo a única diferença entre os dois momentos a de que, na vida adulta, não haverá mamadeira ou desenho no iPad que console sua decepção.

E não tem nada que possa doer mais no ser humano do que o abandono e a solidão típicos desta fase da vida, que, por sorte, dura apenas dos 18 aos 99 anos. Quer dizer, até tem: a depilação do buço com linha. Gente que manda “beijo no coração”. Ou pegar a ponte errada na marginal.

E é assim, de erro em erro, de cagada em cagada, de conta em conta e yakisoba em yakisoba, que o ser humano segue seu curso de vida. Faz uns óculos bifocais lá pelo último terço do ciclo, escandaliza a família com um tardio divórcio e uma inexplicável habilitação de motocicleta, até que, forçado pelo tempo, para pra fazer um balanço de tudo que foi ou poderia ter sido.

Olhando para trás –devagar para não dar um jeito no pescoço–, ele, enfim, se depara com a surpresa maior de todas as biografias. O fato de que foi justamente por achar que era só de cagadas que era feita a vida quase tornou possível assombrar-se com cada maravilha que ela trouxe de presente. E que não foram poucas. Tampouco medíocres.

Por isso, obrigada, vida, por este extraordinário momento em que milhares de pessoas leem aqui neste famoso jornal o monte de bobagens que eu passei horas a escrever enquanto achava que estava arrasando. Que elas continuem voltando aqui sempre, pensando, quem sabe, que talvez o próximo texto publicado seja um pouco melhor que o anterior. E que, sobretudo, eu não estrague tudo, apenas desta vez.

Um beijo no coração. Até já.