O banquete na sala de cinema não conhece limites

Por Marcella Franco

Se Nelson Rodrigues fosse vivo ainda hoje, os cinemas multiplex o matariam do coração. Um enfarte fulminante, logo na primeira visita, caído duro entre as fileiras F e G, lado ímpar, sala 14. Nada contra as grandes cadeias que, nos anos 90, modificaram para sempre o jeito de o brasileiro ir ao cinema – sou fã, particularmente, das poltronas aconchegantes, aquele prático braço com porta-copos, o som realista, a parafernália toda. Mas o que mata a mim um pouquinho a cada sessão, e que exterminaria à queima-roupa Nelson, é, isto sim, a plateia dos multiplex.

Em suas crônicas, era comum ler o dramaturgo reclamando dos tísicos que iam às suas peças “só para tossir”. Pois imagine, Nelson, que há, hoje em dia, o povo que vai ao cinema só para comer. Eu juro. Óbvio que alma nenhuma resiste à sedução da fragrância ardilosa de manteiga, que carrega pessoas da porta da rua e as deposita diretamente na fila da pipoca, derramando, ainda caixas d’água de refrigerante gelado goela abaixo, porque, né, quem come tanto milho assim a seco. O problema, Nelson, está no esquema em que a refeição acontece.

Piores que os estrondosos sacos de papel, só mesmo se as pipocas viessem empacotadas em sacolinhas de mercado. Ou, ainda, em embalagens de plástico-bolha – aí, sim, era para levantar e dar na cara do vizinho de poltrona. Porque, veja, assistir a um filme comendo não é o problema em si. Problema é não se ter educação durante o processo todo.

Infernal, por exemplo, é a ruidosa sugada do último gole de guaraná, ali no fundinho do copão que mais parece cuíca quando o canudo roça no buraquinho da tampa. Infortúnio é a explosão do lacre no pacote de balas gelatinosas em forma de urso, o amendoim coberto de chocolate crocante amplificado pela excelente acústica da arcada dentária humana. A morte é o sanduíche de cheddar que confunde o cérebro da fileira adjacente: será isso queijo ou só chulé?

O banquete cinematográfico, ele não conhece limites.

E se engana quem, de nariz em pé, proclama que ah, mas isto é falta de educação deste povo inculto que frequenta estas pocilgas pós-modernas. Rá. Está aqui Beethoven que não me deixa mentir, posto que se revira três vezes em seu belíssimo túmulo em Viena toda vez que um cidadão, de aparência refinada e elitista, puxa uma latinha de balas importadas do bolso da casaca durante sua nona sinfonia na sala de concertos.

Falta de noção não escolhe credo, idade, gosto, raça nem classe social. Quando se trata de aplacar as lombrigas, não muda nada se tem carrão estacionado no valet, ou se pegou busão até o shopping, se veio para ver versão dublada de animação da Disney, ou um filme sueco da seleção de Cannes – a criatura irá, invariavelmente, se transformar em um descontrolado e egoísta comensal assim que a luz se apagar.

Veja eu, por exemplo. Balé contemporâneo comendo solto lá no palco, e, encostada na minha KK20, amargando comigo a escolha dos piores assentos do teatro porque são só eles que meu (nosso?) dinheiro pode pagar, a desconhecida da KK22 tira do chão a bolsa e a coloca no colo, com movimentos mais suaves que os da companhia mineira que interpreta uma versão coreografada do candomblé lá embaixo. Ela é só supersticiosa, penso, a mãe deve ser tipo a minha que diz que fica pobre quem larga a carteira assim.

Mas não. A moça está é cagando para o seu saldo, ou é mais cética que o Stephen Hawking, ou nem mãe tem, a coitada, porque tudo que ela quer com aquela bolsa não é preservar sua fortuna, mas, sim, me tirar do sério e fazer sonhar com vingança. Devagarinho, mas nem por isso em silêncio, ela transporta o zíper da direita para a esquerda, até pornograficamente expor todo o conteúdo de seus pertences. Enfia a mão com uma precisão ginecológica, e, lá de dentro, remove uma caixinha de plástico cheia de balinhas de hortelã. Balança. Escolhe duas. Abre a tampa, vira de cabeça para baixo, estão entaladas, Deus me socorra. O procedimento é todo muito demorado, muito barulhento, muito insuportável e, neste momento, eu só espero que ela morra.

Na tentativa de entender o que está acontecendo, KK22 ilumina as balinhas com a luz do celular – e você aí achando que não tinha como piorar. Aliás, Nelson, sorte a sua ter morrido quando tudo que a telefonia havia alcançado eram os orelhões e os aparelhos residenciais fixos. Porque, não bastassem as orgias gastronômicas em salas de espetáculos e filmes, as pessoas de hoje em dia também adoram alisar seus telefones portáteis mesmo durante as sessões, algo que, oremos, em breve será passível de pena capital, assim que eu me tornar presidente.

Durante o meu mandato, aliás, será inaugurada uma parceria do governo federal com os cinemas multiplex, para que sejam instalados dispositivos de choque elétrico nas tais poltronas aconchegantes com práticos porta-copos etc etc. Amassou demais o saco de pipocas? Choque. Abriu saquinho de bala de dentadura? Choque.

Nada perigoso, ou que bote em risco a saúde da plateia. Só mesmo um sustinho, por diversão, igual àquele colorante que a mãe da gente (sempre ela) dizia que os clubes colocam na água para identificar quem faz xixi dentro da piscina. A única diferença aqui é que, obviamente, meu sonho de cadeiras elétricas no teatro e no cinema jamais sairá do papel, enquanto que a tinta laranja cagueta está por aí, há décadas, a colorir as piscinas do Brasil – ou vai dizer que não sabia que era sério o que sua mãe dizia?