Pessoas pessimistas são superiores porque estão sempre preparadas para o desastre

Por Marcella Franco

A lua entrou na frente do sol, ficou tudo escuro e frio por alguns minutos em Minesotta, e, agora, minha máquina de lavar roupa aqui em São Paulo vai quebrar, e eu serei atropelada por um motoboy. Ao menos é o que dizem as previsões para o meu signo, que será – falou a famosa astróloga – um dos mais afetados do zodíaco. Não sei vocês, mas eu estou em pânico.

Susan não afirmou nada tão literal, mas avisou que é melhor que a gente se prepare para o pior. E pior, para mim, não quer dizer um mal-estarzinho físico ou um vazio interior profundo, que isso eu já sinto todos os dias há 37 anos. Pior, suponho, é tragédia gigante, é Tsunami no sétimo andar do seu prédio, é pisar na merda de Havaianas, é catástrofe nível filme com o Bruce Willis de astronauta tentando salvar o mundo.

Pessimismo: minha praia. Sempre foi. Independentemente do posicionamento dos astros e de quem entra na frente de quem, carrego na bolsa meu diploma em Pensamentos Negativos pela Unicamp. Baita orgulho. Ninguém no mundo vê tanto o lado ruim das coisas quanto eu vejo. Ninguém no mundo supõe que vá dar tão ruim quanto eu suponho.

Nós, os pessimistas, somos pessoas superiores porque estamos sempre prontos para o desastre. Nunca seremos pegos desprevenidos. Enquanto o resto da humanidade e suas mentes coloridas com unicórnios e esperança vai se surpreender perante o apocalipse, os pessimistas poderão usar com frequência sua frase favorita: eu avisei.

A criança vai subir na parte mais alta do brinquedo na pracinha? Pessimistas diriam que ela vai despencar de cabeça no chão em questão de segundos. O táxi empacou no caos do trânsito em direção ao aeroporto no fim do dia? Pessimistas cravariam que é hoje que a gente perde esse voo.

Um pessimista de verdade não compete por coisa nenhuma – afinal, qual é o sentido se ele já sabe que vai perder? Somos práticos. Poupamos tempo a nós mesmos e à humanidade, economizamos recursos naturais, reciclamos, não poluímos. A gente nem vai, porque a gente já sabe que não vai dar certo.

Contaminamos o mundo com nossa amargura e peso insuportável? Talvez. Mas também somos celebrados vez ou outra, quando o destino finalmente se alinha às nossas previsões funestas e faz com que tudo saia da pior maneira possível. Aí, então, familiares e amigos nos abraçam forte, cheios de carinho e gratidão: “Se a gente tivesse te escutado, nada disso tinha acontecido”. Que bom que vocês reconhecem.

Fato é que, diante do pessimismo realista da astróloga em relação ao fenômeno de ontem, uma parte de mim se conforta em saber que, ao menos uma vez na vida, o universo inteiro estará vibrando na mesma frequência derrotista e apavorada. Estaremos, todos, apenas esperando que venham os divórcios, as demissões, os contratos quebrados, os corações partidos, as notícias terríveis de dentro do consultório do médico e do escritório do advogado.

Com o eclipse, nós, taurinos, ao que preveem os especialistas, iremos se estrepar na profissão, dentro de casa e na conta bancária –  que novidade. Talvez quando o sol entrar na frente da lua, aí, sim, seja a vez de a gente ter uma carreira brilhante com um salário milionário que compre um apartamento duplex em Ipanema.

Disseram na internet, ontem, enquanto o dia virava noite nos Estados Unidos, que, se a gente olhasse diretamente para o sol naquele momento, ia ficar cego para todo o sempre e derreter. Moramos no Brasil, eu sei, mas seguro morreu de velho e pessimista morre um pouco diariamente, então achei melhor não arriscar e virar de costas para o céu. Enquanto temia pelo futuro e pelas minhas vistas, soube que todo mundo assistia à beleza do eclipse. Perdi. Que chato. Mas, honestamente, não fico assim tão aborrecida – afinal, não ia ter dado para ver nada mesmo.