Mãe, quer ser minha melhor amiga?

Por Marcella Franco

De pé, calçando sandálias sem salto, a cabeça dela alcança meu ombro. Ou meu queixo, talvez, não sei dizer precisamente. Os peitos grandes, que herdei dela e de todas as mulheres da família, em mim ficaram minúsculos, depois de cirurgias e filho. Os cabelos em sua cabeça brotam finos e em abundância, e em mim rareiam, embora grossos. Tenho ossos pontudos e visíveis, enquanto nela as formas se arredondam. De modo que, pode-se dizer, em uma comparação breve e superficial, que minha mãe e eu não nos parecemos em praticamente nada.

Do desequilíbrio físico, possivelmente, veio a relação difícil e muitas vezes distante. Se bem que não sei se pessoas se distanciam ou estranham só porque não se coincidem – será condição para a afinidade a identificação nos espelhos? Os gostos, também diversos, se multiplicavam com o passar dos anos, abrindo abismos que nos punham em extremidades tão distantes a ponto de, em alguns momentos, ser impossível para uma enxergar por onde a outra caminhava.

De todos os vínculos que acumulei na vida, aquele com minha mãe foi o mais complicado e também o que me ensinou uma importante lição sobre relacionamentos: as coisas demoram a crescer, e é preciso aceitar a velocidade do tempo.

Por muitos anos, não fomos melhores amigas. Ficamos sozinhas desde muito cedo – desde o princípio, na verdade, porque ela ainda estava grávida quando meu pai decidiu que era hora de terminar o casamento. Sei – porque me contam e também porque acho que me lembro, já que a mente se encarrega de criar falsa memórias quando uma história é ouvida milhares de vezes – que ela abriu mão de tudo para se dedicar à maternidade. Que deixou de cuidar de si, que se congelou em meu favor.

Eu tinha uns oito anos, e ela precisava trabalhar até muito tarde. Quando se atrasava para voltar, eu corria à janela da sala para procurá-la na rua, buscando seu um metro e meio (ou serão um e sessenta?) lá embaixo na calçada, eu, pendurada, sem tela, no quarto andar do prédio em que morávamos. Se não tinha a sorte de avistá-la, o que com frequência acontecia, gritava, chorando sozinha, chamando “mamãe” muito alto, enquanto, mentalmente, rezava para que a força do desejo infantil tivesse o poder de trazê-la de volta para casa. Falhei incontáveis vezes.

Àquela altura, nossa relação era de dependência mútua, e não de amizade. Éramos ambas pura fragilidade e medo, ainda que disfarçadas de fortalezas, mas, não, ainda não éramos melhores amigas.

Quando ela fez 40 anos, me lembro de pensar “Pronto, agora minha mãe é uma velha”. Pensamentos são só pensamentos, claro, e ninguém podia escutar os meus, mas, culpada só por imaginar que ela pudesse saber que, dentro de mim, havia crueldade capaz de produzir julgamentos até mesmo a seu respeito, me escondi dentro do guarda-roupas. Torcia, lá de dentro, para que o dia seguinte chegasse e, com ele, o perdão por tudo que minha cabeça produzia.

Saí de casa não muito depois daquilo. Hoje sei que larguei para trás uma mãe arrasada, abraçada ao velho cocker spaniel da família em busca de consolo e companhia. Quem cochilaria as madrugadas ao seu lado no sofá, assistindo canais de compras na TV da sala? Quem a acompanharia nos almoços de fim de semana, ou nos cafés da manhã na cozinha ao som das notícias do rádio, sintonizado sempre na mesma estação?

Não éramos amigas ainda, verdade. Mas éramos, já, um exército de duas tentando sobreviver ao mundo lá fora. Juntas. Eu sempre em silêncio, negando, mas guiada pelo amor que ela construiu para nos salvar e sustentar a vida toda.

É preciso tempo, me ensinou minha mãe. Uma árvore daquelas imensas e frondosas talvez tenha crescido mais rápido do que a amizade entre nós duas. Levamos anos, sabemos, quase 30. Foram precisos traumas, brigas, distanciamentos, netos, até que chegássemos aonde – ainda que eu não admitisse – sempre sonhamos chegar.

Minha mãe nos amou por nós duas, enquanto eu ainda relutava, imatura e rebelde, a enxergar que éramos iguais desde o princípio. Sou, agora, minha mãe inteira. Nas fotos, na voz, nos trejeitos, me reconheço e confundo em uma simbiose que amo e espero nunca perder.

As coisas demoram a crescer, e, quando crescem, nos fazem desejar que seja possível desfrutar delas o máximo que nos for permitido. De minha mãe, quero toda a companhia que me possa dar, toda a proximidade e troca. Este é, pois, um pedido de desculpas, e um acerto de contas com a vida. Hoje, o que mais espero é que minha mãe me aceite como sua melhor amiga, e que queira ficar por perto. Torço por nós. E espero, acima de tudo, que tenhamos todo o tempo que o tempo nos der.