Esqueci a senha do internet banking e minha vida acabou

Por Marcella Franco

Depois de algumas tentativas inúteis de resolver um problema, estou convencida de que os robôs do internet banking não trabalham a meu favor. Quer dizer, melhor formulando: estou convencida de que, na verdade, não são robôs as criaturas que não trabalham a meu favor no internet banking, e, sim, pessoas muito pequenas que moram dentro dos computadores do meu banco e, de suas minúsculas mesas em seus minúsculos coworkings, não trabalham a meu favor.

A parte triste é que eu sei que não estou sozinha. Somos um time, uma legião. Sem nem conhecer a você pessoalmente, leitor, posso afirmar que seu banco (que não é o mesmo que o meu, porque no meu só tem eu e três velhinhos cegos como correntistas) também tem mini pessoas minusculamente fazendo de tudo para dificultar a sua já extremamente tensa vida – como se ser um adulto produtivo e feliz não fosse complicado o suficiente. Como se alguém ainda precisasse de momentos de profundo terror e ira diante de um aplicativo no celular, ou de um site no laptop.

Experimente esquecer sua senha, por exemplo. Seu bastardo. Não tem mãe, não? Como ousa não se lembrar de alto tão trivial? Ainda se dissesse que você precisa cadastrar senhas diferentes em cada endereço que visita, daí vá lá, mas não é esse o caso, o mundo não é assim. Somos únicos. Somos exclusivos. E queremos que você também seja um de nós, só que, para que isso aconteça, você precisa se lembrar da caceta da sua senha. Dez segundos antes que tudo trave. Nove. Oito.

Oito! Isso! Começava com oito a minha senha, aniversário de casamento, como é que eu fui me esquecer. Oito do três de 1990. Agora vai. Não foi. Como assim não foi? Eu me rendo. Vocês podem, por favor, mandar minha senha para o meu endereço de email cadastrado aí? Grata. Aguardo. Não chegou. E, sim, eu já chequei minha caixa de spam. Jesus, me acode.

Quer saber, que se dane tudo, desisto, melhor cancelar esta e fazer outra. Mais fácil. Vamos lá. Uma combinação de letras e números, mamão com açúcar. Estes números aqui que eu sempre uso, mais estas letras que remetem a coisas familiares da minha vida, voilá, uma senha novinha em folha e fácil de decorar. Hum, não é possível utilizar sequências numéricas. Nem se eu tentar de trás para frente? Também não pode. Ok. Veja agora. Abacate419.

O quê? A, b e c são letras muito próximas no alfabeto? Quer dizer, sim, elas são, não sou idiota, já aprendi a ler, mas, quem foi o imbecil que inventou essa regra estúpida? Já sei: as pessoas muito pequenas que moram dentro dos computadores do meu banco e que não trabalham a meu favor. Malditos.

Se algum dia ainda nesta vida eu conseguir cadastrar uma nova senha, prometo que vou entrar na seção de reclamações do site do banco e postar um textão que eles vão se arrepender de ter nascido. Ah, vão. Escafandro794. Foi. Vamos aos boletos, transferências, DOCs. E isso me lembra de que preciso puxar dinheiro da poupança para cobrir o rombo deste mês. Investimentos, resgate, conta integrada, enter.

Qual é o problema agora? Não tenho saldo suficiente é o cacete. Pergunta para a sua mãe se o meu dinheiro não basta, bando de corno. Eu não sou de invocar a mãe tantas vezes, nem de ficar estressada assim, mas, olha, te juro, essas coisas de tecnologia tiram a gente do sério e fazem qualquer um perder a razão. Mas, está bem, prometo que vou me controlar neste telefonema para a central de atendimentos, até porque os funcionários não têm nada a ver com isso – só acho bom que eles resolvam meu problema.

Opção 9, falar com um de nossos atendentes. Sou a quinta da fila. Podia ser pior e nem fila ter – outro dia liguei para um 0800 em que todos os funcionários passaram o dia todo ocupados, e, a cada vez que a maquininha me dava essa informação, curiosamente a ligação caía e eu tinha que ligar de novo. Sou a próxima, vou chorar de emoção. Boa tarde, Júlio, claro que eu repito todos os números de todos os meus documentos e do RG de minha falecida avó para garantir que sou eu mesma, fica à vontade para perguntar. E, óbvio que você pode me ajudar, quer dizer, espero que você possa fazer isso.

Não, Júlio, eu não tenho aqui o token enviado pelo correio no semestre passado. Não, eu não sei onde coloquei. Perdão, Júlio, perdão eterno. Talvez meu cachorro tenha comido. Aliás, Júlio, o que é mesmo um token? É virtual, dá para pegar na mão? E tem gosto de quê? Ok. Espera. Quer dizer que sem o token eu não vou estar sendo autorizada nem vou estar podendo estar realizando qualquer tipo de transação na minha própria conta, Júlio? É o fim da picada.

Eu odeio esse banco, sabe, Júlio. Acho que já te falei isso. Eu só sou cliente dele porque esta conta foi aberta há 200 anos, e eu tenho preguiça de trocar. Mas é isso que eu vou fazer, está ligado? Trocar. Sair. Mudar. Espero, Júlio, de coração, que todos aí nessa central fiquem broxas e explodam. Estou indo. Vida nova. Aguarde que, muito em breve, esfregarei bem na sua cara o meu novo cartão personalizado, minha cesta de serviços gratuitos, meu saque só com a impressão digital.

Neste novo banco, Júlio, as pessoas muito pequenas que moram dentro dos computadores, lá de suas minúsculas mesas em seus minúsculos coworkings, não farão nada da vida a não ser trabalhar a meu favor. Guarde este nome, Júlio: um banco chamado dinheiro guardado debaixo do colchão. Este é o futuro. Adeus.