Meu filho quer saber o que é uma camisinha: e agora?

Por Marcella Franco

Bala de menta, bala de cereja, bala na latinha, no saquinho, bala, bala, bala e, hum, o que é esse pacotinho? A caixa oferece nota fiscal paulista, pede CPF, enche a cliente de perguntas, e, em meio ao caos que é sempre o momento do pagamento de uma compra na farmácia, digite sua senha, por favor, senhora, a mãozinha se ergue entre o cartão, a máquina e a paz que a ignorância até então trazia à relação de avó e neto.

– O que é isso aqui?

E, balançando o pacote de camisinhas com três unidades, meu filho interpela minha mãe, uma mulher de 65 anos, assim, à queima-roupa, despreparada e leiga de quão profundamente o assunto sexo já havia sido abordado em casa. A farmácia, lotada, ri. Minha mãe só quer chorar.

– Espera que eu já te explico.

– Ué, explica agora, o que é isso? Me diz.

– Só um minuto, menino, calma.

A cliente seguinte na fila imensa e agora entretida pelo espetáculo inesperado assegura “Isso só acontece quando eles estão com as avós”, algo entre o consolo e o escárnio, e minha mãe, avó do neto único, cogita sair correndo e desaparecer em algum lugar entre a Finlândia e o Polo Sul.

Larga isso, põe de volta onde você achou (ele achou ao lado da sessão de balas, como eu dizia, e fica aqui a reflexão a respeito do sadismo dos funcionários das drogarias que devem ficar aguardando por ocorrências como esta ao longo de todo o dia, única diversão entre uma receita de Prozac e algumas dúvidas sobre a dipirona), vamos embora que, em casa, sua mãe te explica.

A mãe sou eu.

E sexo é assunto que, aos poucos, já vinha sendo debatido com as crianças – são duas da mesma idade, beirando os dez -, de modo que algumas etapas do processo no qual uma camisinha se inseriria ainda estavam frescas na cabeça do garoto, especialmente porque, ao ouvi-las, lançou um “que nojo!”, e isso não é coisa que se esqueça facilmente.

Em resumo, aproveitou-se uma camisinha que havia aqui em casa, porque o conteúdo visual me parece eficiente para qualquer tipo de palestra, e tudo correu de maneira tão natural que os funcionários da farmácia ficariam todos mais do que chocados.

Ninguém está aqui para ditar regras sobre criação dos filhos, nem sou eu uma expert porque, olha meu currículo cheio de falhas, mas acredito, do alto de minha fictícia formação em psicologia, que educação sexual é algo deve começar em casa, sem constrangimentos nem enrolação.

Se sexo é uma parte tão importante e real da vida, que se aprenda o que for possível dentro de casa, em um ambiente cercado de amor, onde a primeira impressão – seja ela real ou ilusória, não importa – seja de que transar com alguém, com consentimento, é algo saudável, gostoso e doce, exatamente como uma bala de cereja na estante da farmácia.