Fazer piada de Alexandre Frota não tem graça nenhuma

Por Marcella Franco

Nunca imaginei que fosse escrever esta combinação de palavras aqui, ou em qualquer outro espaço público, mas, vamos lá: Alexandre Frota. Sim, pronto, falei o nome dele. O nome desta pessoa a quem nunca achei que dedicaria nem cinco minutos do meu precioso tempo desta minha oitava encarnação, e olha só eu fazendo um texto inteirinho sobre ele. Veja só o que vocês me fazem fazer.

A quem não passeou muito pela internet nas últimas 24 horas, explico. Foi divulgado que, em 2014, Frota deu início a uma batalha judicial contra seu plano de saúde para conseguir o implante de uma prótese peniana. A informação se tornou pública mesmo sendo previsto na lei que casos em que possa haver constrangimento de alguma das partes – e, veja bem, estamos falando de uma prótese peniana – devem correr em segredo de justiça. A quem atribui-se a falha ainda não sabemos.

Sim, todos nós aqui reunidos concordamos que não há, no geral, absolutamente nada defensável na personalidade de Alexandre Frota, celebridade que, nos últimos anos, vive de criar polêmicas e ofender os outros. Também pactuamos que, deste modo, tudo nesta situação parece tão bizarro que tem cara de esquete de canal do Youtube, ou publicação de site de notícias falsas. No entanto, opino: acho, humildemente, que nada nesta história tem absolutamente graça nenhuma.

Não importa quem seja o sujeito, nem a ignorância de suas palavras e atos no passado a respeito de qualquer que seja o assunto – o fato de que algo de foro tão íntimo venha a público é nojento e cruel, além de preocupante. E, mais do que tratar neste momento da responsabilidade pelo vazamento, é urgente olhar para o que os leitores da notícia estão fazendo com ela em mãos: estão todos se acabando de tanto rir.

Divulgou-se por exemplo, que o sobrenome do médico responsável pelo caso Frota é, santa ironia, Pinto. Daí dá-lhe chacota de duplo sentido, coisa que, ao contrário do que se pretende, não transforma ninguém em humorista talentoso. Parecemos, isto sim, um bando de colegiais fazendo piada sobre bilau – rá rá, gente, que engraçado. Não é cômico que alguém esteja sofrendo com um distúrbio sério e que causaria sofrimento a qualquer um de nós?

Viramos uma sociedade de sádicos. Perdemos a capacidade de identificação e empatia com os outros seres humanos – e, sim, ainda que alguém discorde, Alexandre Frota ainda se encaixa nesta categoria. Vivemos ávidos à espera da próxima desgraça só para que sejamos os mais rápidos e sagazes, com o melhor trocadilho ou montagem da internet. Com isso, abandonamos, em algum ponto do caminho, a habilidade de respeitar a tragédia alheia. Pois, se for pedir demais que a gente se compadeça com o drama do outro, que ao menos saibamos não fazer piada dele.

As pessoas que agora rolam no chão debochando de um problema de saúde de um cara famoso – que pode ou não ser um idiota, isto não vem ao caso – são as mesmas que se amontoam em frente aos portões dos locais de prova do Enem, prontos para destilar todo seu escárnio sobre a desgraça de alguém que não vê graça nenhuma no fato de perder um ano inteiro da sua vida por causa de alguns minutos.

O governo federal, inclusive, ainda que com a melhor das intenções, embarcou na troça ao sugerir, em campanhas publicitárias, que os estudantes “não virassem meme”, e se esforçassem para chegar no horário. Eu acho que há algo de muito grave quando chegamos ao nível de fazer piada da piada. E que é urgente que melhoremos como humanidade. Que analisemos um pouco a busca frenética pelo humor acima e sobre tudo, sob o risco de nos tornarmos, além de sádicos, também imbecis, quem sabe até mesmo iguais àqueles de quem perdemos tempo – e sensibilidade – ridicularizando.