Orixá não tem Facebook

Por Marcella Franco

Como acontece todos os anos em 4 de dezembro, o interfone do apartamento de Iansã ontem não parou de tocar. De hora em hora, pelo menos, o porteiro avisava sobre a chegada de uma nova encomenda, sendo na grande maioria flores, garrafas de champanhe e umas poucas e louváveis quentinhas com acarajé fresco, ainda pelando da fritura.

Satisfeita e um tanto exausta das muitas viagens de elevador para buscar os pacotes entregues por Severino, Iansã resolve, lá pelas quatro da tarde, dar uma pausa para tomar um café e checar seus e-mails. Avessa à modernidade e excessivas tecnologias, Iansã é a feliz proprietária de um PC em cuja CPU estão instalados apenas uma versão original do Windows XP e um ICQ nunca rodado, sobrando, assim, à máquina, as únicas utilidades de se conferir mensagens de trabalho e redigir cartas aos amigos.

Em sua conta pessoal do Yahoo, ela encontra spams de requenta da Black Friday, dois ou três boletos, uma oferta de 50% de desconto em guias só nesta semana, pedidos de auxílio variados e um sem número de cartões virtuais felicitando-a pela data em questão. Iansã, em resumo, neste momento é uma orixá plenamente feliz.

Vale lembrar que, assim como não porta um celular no bolso da saia vermelha, restando-lhe como único canal de localização imediata os jogos de búzios e as ligações para o seu número fixo, Iansã também não faz uso de redes sociais. Ela não tem Facebook. Ela não tem Instagram, muito menos Twitter.

De modo que, justamente por esta existência quase à paisana na internet, é primeiro com ignorância – e depois profunda decepção – que a orixá escuta de Severino a notícia de que seu nome está nos trendind topics do dia, com homenagens virtuais espalhadas pelos quatro cantos do Brasil.

Esta geração, pensa, enquanto procura na gaveta da cômoda a agenda de telefones, está realmente perdida. Acham que eu lá vou ver fotografia que colam num site evocando meu nome, e, ainda que eu visse, que basta simplesmente fazer uma postagem comezinha em um universo imaginário e que estão findas as felicitações. Parabéns a gente dá no mundo real, complementa, seja neste aqui ou no de onde eu venho, que escolham.

Procura na letra J o número do saudoso colega, disca e aguarda que alguém atenda. Do outro lado da linha, a conhecida voz reconhece de pronto Iansã, e pergunta a que deve a honra do telefonema. Já não mais aborrecida, e agora, apenas incrédula dos atuais rumos da humanidade, ela escuta o amigo dizer que, xi, você nem imagina o quanto isso me acontece direto, é quase todo dia, praticamente.

Iansã pede, então, que ele lhe dê, por ali mesmo, um breve tutorial para solucionar o seu problema.

– Pois bem, Jesus, desembucha. Me ensine a criar um perfil em cada uma dessas redes, só para eu poder dar block em geral no próximo 4 de dezembro. Eles que me aguardem.