Quem em sã consciência sonha em ser madrasta? Eu que não

Por Marcella Franco

Prazer, eu sou uma madrasta. Quando preenchi a vaga, não foi muito por escolha própria, mas, sim, porque se apaixonar por alguém que já tem filhos de relações anteriores exige que se assuma o emprego de maneira completa – não dá para namorar um cara que é pai e não se responsabilizar pela criança que vem junto.

Agora, o que dá para escolher é como se vai abraçar esta responsabilidade. Em resumo, você pode tentar ser legal, ou você pode ser uma completa escrota e virar um pesadelo eterno na vida do seu enteado ou enteada. É preciso admitir que, já de antemão, não somos lá a raça mais bem vista da sociedade. Se nas histórias infantis somos a escória da humanidade, na vida real algumas de nós também não colaboraram muito para melhorar nossa imagem.

Dê um Google em notícias usando apenas a palavra “madrasta”. Lá estará nossa classe torturando meninos e meninas, machucando, judiando física e psicologicamente, botando em prática com louvor o papel de vilã assassina que acompanha a alcunha desde que o mundo é mundo. Desta forma, quem em sã consciência deseja virar madrasta nessa vida? Eu que nunca quis.

Não fazia parte de nenhum sonho meu conviver e lidar com a criação de alguém e não poder questioná-la. Acrescentar ao calendário datas oficiais de convivência com a ex-mulher do homem que amo. Rezar para que todos, os seus os meus e os nossos, se respeitem e, que sorte seria, se gostem e curtam estar em sua companhia. Eu fui enteada a vida inteira, e soube sempre que não era amada verdadeiramente, pelo contrário – se havia um estorvo, aquela era eu. Já pensou se um dia mesmo que sem querer eu fizesse o mesmo com alguma criança no mundo? De modo que não seria muito mais fácil não ser madrasta, e ponto final?

Seria, se não houvesse um profundo carinho por aquelas duas (às vezes três, quatro, muitas) pessoas que entram na sua vida de repente, sem licitações ou formalidades. Vrá, e lá estão eles dormindo na sua casa, repartindo sua cama, comendo sua comida, tomando sua rotina, sentando no seu colo, olhando nos seus olhos e encharcando seu coração de um amor conquistado e precioso. Você se apaixona. Por ele, e por eles mais.

Com isso, aprende que ser madrasta é caminhar na linha da sutileza. É estar disponível sem jamais impor esta presença. É, por vezes, ficar invisível, e estar ok com isso. Aceitar o segundo plano como um lugar confortável, e nem por isso menos importante. É um exercício maravilhoso sobre a alternância muito louca entre nossa total insignificância no mundo e a profunda influência que podemos causar na vida de uma pessoa.

Ser madrasta é saber que sua atuação na vida daquela criança, ao contrário do que acontece com um pai ou uma mãe, tem a forte tendência a ser passageira, e que o desafio de fazer este período – seja ele curto ou duradouro – algo construtivo e memorável depende apenas do quanto você está aberta a se enxergar como ser humano, e disposta a se modificar no que for necessário.

Prazer, eu sou uma madrasta, e não há nada neste mundo que me faça evoluir e aprender mais sobre o amor do que ocupar este papel.