E a vontade de meter o louco na hora de comprar o material escolar?

Sabe aqueles filmes de zumbi, quando a cidade já está tomada pela praga, e só sobraram os monstros andando devagarinho pelas ruas, se trombando nas coisas e nos amigos defunto? Pois a volta às aulas é igualzinha. Experimente entrar numa papelaria qualquer e observe as mães, pais e avós tudo perdido pelos corredores, cada um segurando seu papel da escola, tentando localizar item por item daquela maravilhosa lista de material do colégio.

Porque não é simplesmente catar um caderno aqui, uma canetinha ali, amigo sem filho que lê este texto. Não se iluda. Até porque, se fosse assim tão fácil, as coordenadoras não teriam o prazer sádico de passar as férias de dezembro montando aquele inventário tétrico cheio de produtos que elas mesmas inventam e que não estão à venda em lugar nenhum.

Uma amiga, por exemplo, me chama desesperada, mãe de primeira lista, já rodou Belo Horizonte inteira atrás de um rolo de fitilho vermelho. Primeiro que ela nem sabia o que era fitilho – prazer, Marcella -, segundo que as papelarias mineiras só trabalham com fitilho azul ou fitilho verde. Essa cor de comunista, senhora, não vamos estar tendo, sinto muito.

Minha maior dificuldade este ano foram os 20 envelopes plásticos gramatura 15 com quatro furos. Esse tem, mas acabou, lamenta o vendedor, quase me dando um abraço para amenizar as duas horas e quinze minutos que já rodei dentro da loja, derretendo no calor de 39°C sem ar condicionado. Pode encomendar, pergunto, mas ele já se foi, para confortar um pai que chora diante das prateleiras de tinta guache a dedo 12 cores neon 30 gramas.

Dá vontade de meter o louco e adaptar a lista do jeito que der. Pasta Romeu e Julieta com capa de PVC transparente? Só tem colorida, moça. Então vai colorida mesmo! Caderno brochura universitário 48 folhas? Só tem 96 folhas, moça. Então vai 96 folhas mesmo! Passa pra cá esse sulfite amarelo, desce três caixas de pincel chato 14 no lugar do 12, será que eles se importam se eu mandar um estojo como nécessaire?

Preciso de dois rolos de etiqueta, um grande e outro pequenininho. Porque, me ensinaram, tem que etiquetar lápis por lápis, canetinha por canetinha. Delícia. No grupo de mães do WhatsApp, várias indicações de profissionais que produzem “etiquetas personalizadas”, e minha amiga mineira agora questiona se é uma péssima genitora porque vai fazer tudo à mão.

Pois somos duas, porque aqui em casa personalizada mesmo só a correspondência que o Serasa me manda todo mês, religiosamente. É o único momento do ano em que me arrependo da escolha que fiz para registrar a criança, que soma 15 letras entre nome e sobrenome. Alguém me informa como faz pra trocar para André Silva? Ou Tom Costa?

Diante de um contexto tão maravilhoso e atraente, há que se imaginar que, ao se atingir a meta dos 63 itens da lista a gente fique feliz e possa comemorar.

Mas, não. Quando a gente atinge a meta, a gente dobra a meta e, além de chorar, cogita deitar no carrinho em posição fetal, porque, na hora que a caixa anuncia R$ 720, senhora, quer parcelar em 12 vezes?, e a gente de Humanas começa a fazer divisão de cabeça e descobre que nem se parcelasse em 90 vezes seria o suficiente, as únicas opções possíveis envolvem 1) sair correndo sem pagar, carregando os blocos criativos tudo nas costas e rezar para a polícia demorar ou 2) ligar pra minha mãe e pedir colo.

Toca a marcha fúnebre enquanto digito a senha na maquininha e o gerente me oferece uma bala de menta como cortesia. Tem arsênico, moço? Se tiver eu prefiro. Ele indaga se tive uma boa experiência, eu respondo que foi fantástica, e ele pergunta se faltou algum produto. Faltou, sim, Nogueira. Faltou o bloco canson gramatura 120 tamanho A3, mas, quer saber de uma coisa? Vou mandar um parecido que tenho em casa, tudo a mesma merda, só muda as dimensões. Papel A3, papel A4, Nogueira, vamos todos morrer mesmo.