Bruna Marquezine e a fantasia de mulher evoluída

É o peito da Bruna Marquezine, é o decote da Cleo Pires, é a bunda da anônima que entra na padaria pra comprar água e voltar pra folia – passou o bloco da patrulha. Não sei no Facebook de vocês, mas, no meu, só tem puritano perfeito nesse Carnaval. Quer dizer, justiça seja feita: perfeito, não, só perfeita mesmo.

Porque parece que não ter silicone é caído. E que expor seu silicone também é errado. Calcinha muito pequena não pode, maiô socado também não. E nem pense em aparentar felicidade, principalmente se estiver seminua, porque pega mal e ofende as famílias. Senhor. E a gente achando que era só se vestir de índio e cigana que dava B.O nesse fevereiro de 2018.

E olha que, se fosse só homem dizendo que os peitinhos da Bruna estão fora do padrão ISO 9000 brasileiro de qualidade, eu não me espantaria – afinal, não é de hoje que a gente tem que portar o que mais agrada à freguesia, e não a nós mesmas. Mas o que pegou foi que, de 10 sommeliers de teta que passaram pela minha timeline (e pela sua, creio), 23 eram mulheres.

Gente, quem são vocês que replicam cobranças que nos vomitaram na cabeça pela vida toda? Por que fazer com as outras o que você odeia que te façam? Você não percebe, moça, que está sendo machista?

A colega se queixa de que estava na padaria com o marido, filho e sogro mandando ver num pão na chapa quando uma mulher contente posicionou sua meia bunda de fora na fila do caixa. Cadê as viaturas quando a gente mais precisa delas, bradava a mãe de Jesus no post em um grupo composto só de mulheres. Acode, Rota, pelo amor!

E a gente não pode nem reclamar dessas vagabundas (sic) em paz, clama a mulher que, ontem mesmo, estava lá compartilhando com a gente a foto dum cara equilibrando uma toalha no membro em riste (salvei aqui, se quiserem eu mando). A indignada original, que topou com a animada nádega na padaria, frisou, por fim, que, além de tudo, ainda tinha que lidar com o marido e o sogro ofendidos com a nudez alheia – porque se tem uma coisa que eles realmente devem ter ficado ao ver a foliã pelada foi chateados, aposto.

Amiga, não adianta camuflar sua insegurança debaixo de uma suposta moral rigorosa e depois vir esfregar no nariz da gente. Não cola. A tentativa de controlar o universo à sua volta – e a consequente decepção ao ver que isso é impossível – só te aprisiona e entristece. E se a gente te contar que é tão mais fácil se libertar e entrar no jogo?

Não quer arrancar fora a roupa, não arranca. Não quer dançar no bloco, não dança. Não gosta de peito e bunda de fora, não olha. Mas não nos venha com a sua honra tentar cercear a nossa autonomia. Que aí, perdoe, a vontade geral será rebolar definitivo todo o atrevimento de uma geração emancipada no cappuccino da sua família de bem.

Não aceitar o corpo da outra é sinal de que está difícil aceitar o seu. E isso, saiba, muito provavelmente nem é culpa sua, mas, sim, dos padrões nos quais somos todas obrigadas a nos encaixar desde pequenas. Vale, portanto, tentar identificar realmente o que te move ao malhar os seios alheios – ciúmes, inveja, baixa autoestima – e curar a ferida que há no seu próprio peito.

Faça as pazes com você mesma e experimente, então, olhar de novo para toda a ousadia do Carnaval. Garanto que nada cai melhor na gente do vestir com propriedade a fantasia de mulher evoluída.