Xoxota é xoxota, virilha, não

Marcella Franco

Dentro de um cubículo de depilação, coisas extraordinárias acontecem. É basicamente a porta de Nárnia do salão de beleza. Gosmas borbulham dentro de panelas mitológicas e quentes como o sol, à espera da próxima vítima peluda oriunda do mundo real. O tempo, igual no guarda-roupa do livro, também passa mais devagar – você precisa ver o tanto que leva da hora que uma perna é encerada até o tardio momento em que a depiladora puxa o emplastro, levando junto com seu salário & sua alma.

Passam-se os anos (com o perdão do semi-trocadilho), e eu não me acostumo com a naturalidade do mise-em-scène. Ainda me constrangem a nudez sem carinho, as posições muito ousadas, a prosa coloquial que disfarça não só o mal-estar da situação toda, mas também dissimula uma intimidade que não existe.

Afinal, o que sabe aquela mulher da minha vida? Além do pouco que revelo, e do tanto que meu corpo entrega, que relação temos nós, a depiladora e eu?

Ligia interrompe meu devaneio e pede para eu me virar. Pergunta, toda prática, se hoje vou querer fazer o ânus. É que Ligia sabe que cabelos crescem nos mais remotos rincões do corpo humano, e imagina que serei mais feliz se me livrar ao menos daqueles. Pois ok, Ligia, depile meu furico. E, se não é possível ser romântica, que ao menos seja rápida e discreta.

Não é possível que alguém se acostume a ver tanta gente arreganhada na maca, afastando com as mãos as bandas da bunda, fingindo extroversão. Não tem como um trabalho assim ficar mecânico, feito o do caixa de supermercado que passa mercadoria no leitor do código de barras. Aqui, amigos, não tem essa de lá vai mais um biscoito, macarrão, quilo de banana – podem passar 30 traseiros diários na vida de uma depiladora, que não é nessa vida que ela se habitua.

Fora o tanto que deve emputecer qualquer uma a necessidade de camuflar substantivo. Precisar falar em axila quando é hora de conversar sobre sovaco. Maquiar bigode com nome chique de buço. Chega de eufemismo com a depiladora. Basta. Lançada a campanha “Me chame pelo MEU nome”, vamos até para fazer um filme. Que voltem cus e as xoxotas, e tenham uma morte horrível todas as virilhas cavadas.