Medo do Ano-Novo

Enquanto meus primos tinham medo do escuro, meu pesadelo era o Réveillon. Como se fosse um ente físico e palpável, o ritual absolutamente simbólico inventado pela humanidade para legitimar acender rojões e comer lentilhas e pular marolas tudo junto numa mesma noite me assombrava de maneira surreal. Se estivesse ao meu alcance infantil, eu escolheria todo ano dormir profundo durante a passagem de um calendário para o outro.

Era um pavor sem lógica. Não havia qualquer trauma no meu histórico. Tirando aquela vez que ficamos engarrafados na Imigrantes na praça do pedágio, e, sem ceia, comemos Cebolitos brindando o Ano-Novo do lado de fora do Fusca, nada de triste nunca me aconteceu em uma noite de virada.

Ainda assim, temi pela minha vida por toda a infância, sempre que o relógio ameaçava bater a inevitável meia-noite. As vinhetas de Réveillon da Globo também não ajudavam. Meu intestino gelava no primeiro acorde da musiquinha, e não precisava nem o Lima Duarte dizer que hoje era um novo dia de um novo tempo para eu sentir vontade de vomitar.

Em 1986, aumentaram o terror convidando o Araken, o showman, para integrar o elenco. Não bastava me assustar por toda a Copa do Mundo, ele agora vestia branco e avisava: o futuro já começou.

Criança tímida, sofri calada o tormento. Ninguém nunca soube do flagelo que era para mim o comercial da Brahma e seus personagens de branco bebendo na praia. Ou o coral na TV entoando a contagem regressiva. Eu fingia bem. Era uma boa convidada da festa.

Participava ativamente dos rituais. Branco era a única cor possível nas roupas. Brindar sempre, nem que fosse com refrigerante. Comia direitinho as sementes de romã para guardar depois na carteira, em filetinhos de papel alumínio, na divisória do cartão de crédito. Levantava o pé esquerdo do chão assim que faltasse um minuto, para garantir que só o direito estivesse ali firme no começo do novo ano.

Gostava de escolher com as primas uma cor de calcinha, a depender do que mais se desejasse para os meses que vinham. Quando criança, amarelo para ter dinheiro pra comprar gibi e picolé. Depois, adolescente, vermelho, porque eram muitas as paixões platônicas.

Assim, acompanhada e inserida no contexto, ficava mais fácil atravessar o problema. Mas, depois de adulta, quando acontece de às vezes a gente não ser convidada para festa alguma, foi preciso muita coragem para vez ou outra encarar sozinha o “Show da Virada” sem surtos. Não chorar de medo à visão do Lulu Santos na Paulista.

Ontem foi Ano-Novo de novo. Passei de vestido azul, sentada no chão, com a cachorra no colo. Sem copo na mão. Calcinha velha e branca. Numa casa na serra, pouca gente por perto. Não senti medo, pela primeira vez. Talvez esteja curada.

Vai ver meu medo era da televisão. Ou da Rede Globo especificamente. Talvez o pavor fosse de deixar algo ir embora. Apego. Como soltar assim, em dez segundos de trás pra frente, algo que foi meu por 365 dias? Será que o próximo ano seria tão bom quanto? Quiçá pior ainda que este antigo? Medo do novo. Medo de crescer.

A maior pena da vida é que às vezes a gente demora tempo demais pra aprender. E mais tempo ainda pra reconhecer e mudar as coisas. Quem sabe o Araken tentava desde 1986 me passar esse recado. Às vezes, as grandes lições podem vir na forma de uma mascote na TV, ou no calendário novo em folha que o pet shop dá de graça quando a gente compra ração em dezembro.