Os abacates da quarentena

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Marcella Franco

Para fazer um suco pra três pessoas são necessários dois maracujás pelo menos, talvez fique aguado e o ideal seja uma fruta por pessoa, não sei, mas, se for para bater abacate, basta escolher um só, dos grandões, e eu acho que isso é por causa da textura cremosa e do leite que a gente adiciona. Rende.

Quando minha avó fazia creme de abacate de sobremesa, tinha que racionar só um potinho por pessoa. No geral eram uns 15 potes. Faço as contas de quantos abacates dos grandões ela tinha que trazer da feira no carrinho pra depois abrir, tirar o caroço, misturar no liquidificador, e servir com gotinhas gostosas de baunilha.

Era um gesto de carinho em forma de comida, como os tantos que ela fez por tantos anos, cozinhando para nove filhos, quase 20 netos, famílias imensas que faziam ao menos uma refeição por dia na sua casa. Ela vivia exausta. E, quando a gente vive exausta, é fácil confundirem nosso cansaço com má vontade.

A quarentena faz a gente viver numa exaustão eterna. Parece, olhando de fora, que todo mundo ganhou mais tempo e que a vida ficou mais fácil, já que ninguém tem que – nem pode – sair para lugar algum. Acontece que a única coisa que mudou foi que a gente trouxe tudo que fazia lá fora para dentro de casa.

Veio o escritório, veio a escola das crianças, veio a academia, a faculdade, e se não vieram os carros trancados no sinal vermelho, foi só porque o destino é muito ágil e a cozinha virou nosso novo trânsito. Ninguém precisa mais se enfiar em engarrafamento ou metrô lotado, mas agora tem três refeições no dia pra preparar pra família toda.

Viramos todos as nossas avós, lá nos anos 1970, 1980, 1990. Todo dia um abacate diferente para bater prum batalhão. E, feito elas, também ficamos exaustos, e, feito o que fazíamos com elas, o que não falta é gente em casa para achar que nosso cansaço é na verdade mau humor.

Pior que às vezes até é. Tem dia em que não dá vontade de nada mesmo, que dá saudade de tudo, que parece que nunca mais nada vai melhorar. E, seja nesses momentos, ou naqueles em que a estafa bate, tudo que se quer é compreensão. Carinho. Duas coisas que, na quarentena, por vezes faltam. A gente ressente não ter, a gente se esquece de dar.

Faço esse texto para não desaprender meus afetos por aqueles com quem a vida houve de me colocar aqui e agora. Quero não ser traída pelo contexto. Quero manter acessíveis os porquês da intersecção que – fundamental lembrar – escolhemos fazer de nós.

Saber, em todos os momentos, até quando a disposição falha, da cor das bochechas do meu filho, e de como, mesmo com o passar dos anos, o tom rosado não desce nem sobe um tom. Evocar os primeiros meses de vida, a textura dos cabelos, não deixar de me espantar diante dos pés que crescem e da voz que muda.

Já do meu amor que escolhi no mundo, quero diariamente reviver a sensação de pousar a mão no peito liso da primeira noite. Evocar as músicas que ganhei. Ter em mente que foi também por causa da ampla variação de timbres que sua voz alcança de manhã que me apaixonei. Isso, e o tamanho das mãos e dos punhos. E os dentes da frente, argumentativos.

Eu amo vocês. Vocês e todos os meus a quem, por ora, não é possível abraçar. São tempos de oferecer carinho de outros modos, e de cuidar de manter o que dá. Aqui em casa, vai ter sempre creme de abacate, a gente pode se revezar no preparo. Nos dias em que todo mundo estiver cansado, é só deitar no sofá e chamar um delivery. E a louça, esquece: deixa que amanhã a gente lava.